CONTO
À Espera de Alguém
A segunda-feira começava lenta e calma para meu espanto. Trabalhadores pedalavam fortemente suas bicicletas na ansiedade de chegarem aos seus destinos e, ao lado dos trabalhadores, passava, na calçada, um menino chutando uma pedra que insistia em estar a sua frente. Os trabalhadores pedalavam em direção a seus trabalhos, e o menino chutava a pedra e andava, também, para seu trabalho. Trabalhadores e menino cumprimentavam-se e trocavam sorrisos todos os dias, no entanto, o sorriso do menino não combinava com o sorriso de seus amigos trabalhadores, o sorriso destes era alegre, o do menino, não.
Levava cerca de dois minutos para que trabalhadores e menino não mais se vissem, já que as pedaladas se davam em ritmo acelerado e os carros já começavam a tomar conta das ruas, fazendo com que a visão do menino alcançasse um curto espaço daquilo que a sua frente estava, e que não era pedra, mas agora, um amontoado e imenso congestionamento. Ele já não mais podia chutar a pedra e tampouco os carros que tomavam seu lugar na faixa de pedestres. O menino mal conseguia atravessar as ruas, tudo tinha de ser calculado friamente para que ele não invadisse o território dos luxuosos automóveis que à sua frente passavam. Curiosamente, os vidros dos carros eram levemente escurecidos, e em meio a um carro e outro o menino perguntava-se por que não o deixavam ver quem dirigia os cobiçados e luxuosos carros.
O farol se abriu para os carros, mas não para o menino. Ele ficou ali, parado, esperando que alguém passasse com os vidros do carro abaixado para que pudessem, menino e dono do carro, conversarem um pouco sobre mais um dia que acabara de começar. Naquele farol era corriqueiro a passagem apenas de executivos, grandes empresários e outros mais que gostavam de passar pelo lugar que sempre tinha um menino esperando alguém, não se sabia quem, nem mesmo o menino sabia. Mas ele esperava alguém.
O dia já se mostrava luzente e o sol incumbia-se de providenciar um intenso e forte calor já pela manhã. O menino, que tinha na cabeça um velho e surrado boné, não importava-se muito com o calor que muitos diziam ser parecido com o do inferno, ele já se acostumara. De boné na cabeça, o menino acenava para os carros e mostrava algumas balas embaladas num simples papel, na esperança de que alguém o enxergasse e o ajudasse com alguns centavos, levando uma bala, que apesar de estar embalada num simples papel, era saborosa.
Na cidade, há sempre aqueles que querem apreciar as belas construções e não querem vê-las através dos escurecidos vidros dos carros, nesse caso, eles abaixam os vidros e apreciam os arranha-céus, o carro mais novo que acaba de passar ao lado e, agora, com os vidros abaixados, vêem também um homem velho, que quase sem forças, empurra seu velho carrinho e recolhe objetos depois de revirar de cima a baixo as latas de lixo. Alguns desses apreciadores das grandes e belas construções da cidade, também passam pelo farol que costuma sempre ter um menino esperando alguém e que ninguém sabe quem, nem mesmo o menino. Com os vidros abaixados, todos vêem o menino. Boné na cabeça, uma pequena mochila, chinelo nos pés e sua camisa tem um pequeno buraco que, na verdade, nem é tão pequeno assim, já que alguns executivos conseguem contar os “ossinhos” da costela do menino.
Com muito custo o menino avista, lá na frente, um carro com os vidros abaixados e sem hesitar dirige-se em direção ao carro. O sinal se fecha. O menino oferece suas balas embaladas num papel simples, mas muito saborosas e ao mesmo tempo sorri para o motorista que leva consigo uma bíblia. Ele é pastor e, antes de qualquer coisa, pergunta ao menino onde estão seu pai e sua mãe, onde ele mora, por que não está na escola, enfim, essas coisas que se pergunta quando se quer cativar alguém. O menino, que já não mais sorri, responde que não tem pai nem mãe, mora com sua avó e mais dois primos numa favela a uns sete quilômetros dali. O pastor, que esforça-se para não escapar à norma culta da língua portuguesa, dá ao garoto um pequeno cartão contendo o endereço de sua igreja que, por sinal, fica próximo à favela do menino e diz que espera a família para um culto, no qual ambos, receberão a graça de Deus e,“se Deus quiser - diz o pastor - sairão da situação na qual se encontram e viverão dignamente da forma como quer o senhor”. E, quiçá, Deus queira mesmo que o menino saia do farol, pois se depender do pastor ele ficará ali por muito tempo. Entretanto, dizem por aí que os pastores são os escolhidos para anunciar a boa nova do senhor aqui na terra e, sendo assim, talvez Deus queira mesmo que o menino fique no farol esperando alguém, não se sabe quem, enquanto passam por ali mais alguns pastores que correm para anunciar que o fim do mundo já chegou.
Já se aproximava a hora do almoço e o menino já sentia fome, mas, em obediência, aguardava a boa nova do senhor com a barriga vazia. Já com as pernas trêmulas de fraqueza, o menino vê um carro de cor cinza que se aproxima do farol e tem seu vidro abaixado, pois o motorista avistava as belezas humanas, ou seja, as construções que o homem projetou na cidade e também a beleza natural, claro, projetada por Deus. O sinal fechou. O carro pára, o menino aproxima-se, estende a mão, abre um sorriso e oferece suas balas ao motorista que, por sinal, é um padre que veste roupas de tecido importado; o carro é lançamento, havia chegado à concessionária há uma semana, como dizem por aí, ainda estava “amaciando o motor”. O padre tomava um refrigerante, levava-o à boca e o retornava ao porta-latas de seu humilde carro, enquanto isso, estava lá o menino que quase sem força para pronunciar as palavras, pedia para que o padre comprasse suas balas embaladas num humilde papel, mas muito saborosas, pois estava com fome e usaria o dinheiro para alimentar-se. O padre, sorridente, ao contrário do menino que já derramava lágrimas, dizia que só tinha consigo cartões de crédito o que tornava impossível a compra das balas. O sinal abriu para o padre. Sem perder tempo, o representante de Deus na terra apanhou um chiclete e o entregou ao menino dizendo: “tomai esse chiclete, masque-o veemente e reze dois pai-nossos para que Deus possa retirá-lo dessa situação”, e ao fim da benção, disse que “se Deus quiser, o menino sairá daquele farol”. E, quiçá, Deus queira mesmo que o menino não mais precise ficar no farol, pois se depender do padre, ele rezará muitos pai-nossos “sol a pio”. Entretanto, dizem que os padres são a voz de Deus na terra, seus verdadeiros representantes, já que é assim, o menino está no caminho certo.
O sol atinge o meio do céu, o menino mal abre o olho e encostado num poste, olha o horizonte e não consegue ver nada à sua frente, além, é claro, da fome que há horas o atormenta. Quase que desmaiado, o menino ainda encontra forças para enxergar um carro que se aproxima, vem lentamente, parando. Na verdade, não é bem um carro, é um carrinho, e de lixo. Atrás do carrinho vem o homem velho, aquele que os motoristas quando estão com os vidros abaixados conseguem vê-lo. Também quase sem forças, o homem velho empurra com dificuldades sua ferramenta de trabalho, naquele momento abundante em papéis, latas e lixo. O homem velho posiciona o carrinho à beira da calçada de maneira que se forme uma pequena sombra sobre o menino e retirando do bolso um pequeno pedaço de pão, o parte ao meio e dá ao menino dizendo: este é meu alimento que seria usado para matar a fome do meu corpo, mas a sua fome é maior e sua força menor, tomai e comei. O menino que já mostrava-se mais animado e forte tomou o pão, comeu a metade, sentiu-se saciado e deu a outra metade para o velho homem que comeu e também ficou saciado.
Após comerem, as nuvens encarregaram-se de tapar o sol e a tarde envolveu-se de um clima agradável, no qual, homem velho e menino não mais preocupavam-se em recolher lixo ou vender balas, pois o menino encantara-se com as lindas histórias que seu novo amigo acabara de contar. Como era a primeira vez que os dois haviam se encontrado, a curiosidade de criança do menino do farol levou-o a fazer perguntas sobre a vida do homem velho. “Onde o senhor mora”? Dizia o menino. “Quantos anos o senhor tem? O que faz aqui no farol com esse carrinho”? Com exímia paciência, o homem velho respondeu a primeira pergunta e disse que morava em muitos lugares, pois tudo dependia de como era acolhido e da morada que o davam. Respondeu também a segunda pergunta e disse que tinha muitos anos, até perdera a conta, já que há vários calendários espalhados pelo mundo e cada um diz uma coisa. Ao responder a terceira pergunta o homem velho abaixou a cabeça, deixou cair uma lágrima ao chão e olhando novamente para os olhos do menino disse: Meu filho, fico aqui perto desse farol para observar quanta hipocrisia há no coração do homem, pois muitos dizem ser seguidores daquele que sempre amou seu próximo, mas não conseguem estender a mão àquele que, ao lado, precisa de ajuda. Fico perto desse farol, meu filho, para observar, com tristeza, a importância que o homem dá para sua construções e os bens materiais, mas não conseguem perceber e, acima de tudo, sentir, quanta miséria é necessária para sustentar tudo isso. E dizendo mais algumas palavras, fez com que o menino, já cansado do seu trabalho, dormisse em seu colo. O homem velho arrumou com cuidado um lugar em seu carrinho que já não mais tinha lixo, mas apenas alguns papéis, deitou o menino e o levou para um lugar desconhecido. O menino esperava alguém. O alguém chegou, matou sua fome, conversou com ele e o fez dormir de uma forma que só um pai consegue fazer. O alguém fez algo muito simples, foi amigo.
O menino dormiu, mas a rotina do farol continua a mesma, passam ali centenas de carros e ninguém vê o outro menino que agora trabalha ali, sempre esperando alguém.