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01/08/2008


Sem título

 

Dizer que a vida é uma rosa

É afirmar que existem inúmeros espinhos,

Dos quais a vida dispõe a sua maneira.

É preferível ver a rosa.

Não queremos ver os espinhos

E, quando os vemos,

Os retiramos brutalmente da ferida que ele nos abriu.

E voltamos a olhar a rosa, esquecendo-nos de que quem abre a ferida

É o espinho.

Alex Dancini

Escrito por Alex Dancini às 10h33
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23/07/2008


Quem Já Amou

 

Quem já amou saudade sente,

Regresso pede do sentimento ausente.

De um sentimento que não atormente,

O prazer da vida e o descanso da mente

 

Quem já amou quer voltar,

Ao primeiro dia em que aprendeu a amar.

Saudade sente e começa a sonhar,

Que amanhã o sol volte. Que volte a brilhar.

 

Quem já amou não esqueceu,

Dos erros que cometeu.

Acertar sempre, não deu,

O erro foi meu. Também foi seu.

 

Quem já amou sem querer escreve,

Palavras que o vento leve.

Quem já amou escreve,

Versos de que nada servem.

 

Alex Dancini

Escrito por Alex Dancini às 00h01
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17/07/2008


Caso Dantas e a imprensa

A imprensa brasileira tornou-se, realmente,  um partido e, para completar, um partido golpista. O caso Daniel Dantas é a maior prova da ação criminosa desse partido. Analisemos:

O banquiero Daniel Dantas tem uma forte ligação com os amigos tucanos, já que, no mandato FHC, o banqueiro recebeu uma generosa ajuda(bilhões) do governo para que seu banco(Opportunity) não viesse a falir.

Daniel Dantas, se condenado, leva consigo grandes amigos da direitosa e, por consequência, da elite branca brasileira para a cadeia.

A elite branca brasileira, dominadora dos meios de comunicação, inclusive e, principalmente da GLOBO, não aceita e jamais aceitará que a Polícia Federal prenda pessoas do alto escalão da sociedade brasileira.

Chamam o governo Lula de corrupto, mas esquecem de dizer que prisões como a de Daniel Dantas nunca aconteceram. Sempre tiveram medo de derrubar a elite branca e a direita brasileira.

Por isso, os meios de comunicação articulam-se para levar aos leitores, ouvintes e telespectadores uma versão que deturpa os fatos, esconde os culpados e coloca em foco o governo federal, o qual é liderado por um ex-metalúrgico, sem ensino superior, nordestino e de esqerda, características que a elite branca brasileira detesta e, por isso, a imprensa esconde Dantas, não revela onde tudo começou, quem são seus comparsas e mostra para a sociedade que o Governo Lula é o verdadeiro culpado.

De que maneira a imprensa apresenta os fatos:

Os crimes de Dantas não são revelados pela imprensa(e ela sabe quais são), não falam de suas ligações com políticos do PSDB e do DEM, no entanto, fazem questão de explicitar dois nomes de petistas que aparecem nas escutas telefônicas.

A imprensa desqualifica o inquérito do delegado Protógenes Queiroz. A imprensa aponta, no inquérito, erros de português, e preocupa-se com isso, apenas.

A imprensa preocupa-se agora com um suposto caos entre o Governo e a Polícia Federal.

Ou seja, a imprensa tenta, de todas as formas, minar a operação Satiagaha e seu inquérito, já que, a prisão de Dantas, tira o sono de muita gente da elite branca brasileira.

ALex Dancini

 

 

Escrito por Alex Dancini às 11h14
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16/07/2008


O tempo passa...E não o vemos

 

Nas desilusões rotineiras

Eu lembro da infância,

E das minhas brincadeiras

Que causava discrepância.

 

Mal eu sabia

Da dificuldade que viria.

Ser um bom estudante

Ah, eu não conseguiria.

 

Quanta falta me faz

O livro jamais lido,

Possível não é voltar atrás

Também, a adolescência já tinha ido.

 

Com o que tem

Caça o caçador,

Pode não ter uma boa arma

Mas, quando atira, o faz com amor.

 

Alex Dancini

 

 

 

 

Escrito por Alex Dancini às 15h15
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O que  não queremos ver

 

Viver sonhando, andando

E, às vezes, acordando.

Parando e pensando ,

Se tudo não passa de uma farsa.

Conveniências absurdas.

Vieram de onde?

Vão para onde?

Amamos as conveniências,

E não as pessoas.

 

Viver falseando,

Todo dia rezando.

O coração está inflado,

O amor, transbordando.

Oh, ironia do destino...

Já estou acordando.

 

Alguém bate à sua porta,

Você corre e atende.

A abre sem vontade,

E ao olhar, se surpreende.

 

Grita enfurecido,

Com os lábios retorcidos:

Vá para a puta que o pariu,

Mendigo insolente.

 

Alguém bate à sua porta,

Você corre e atende.

É seu amigo, grande cara,

Você o recebe sorridente.

 

Qual é a diferença,

No que toca à presença.

São dois seres humanos,

Mas, o que muda é a aparência.

 

Tiremos a máscara,

Que mascara nossa consciência.

Digamos com todas as letras,

Que vivemos de conveniências.

Alex Dancini


Escrito por Alex Dancini às 10h35
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Um dia, Atroz o Outro.

 

O dia nasceu

O riacho correu

O bêbado bebeu

O primeiro copo que o amigo lhe deu.

 

A mulher sorria

A dona de casa ria

A empregada não fazia

O suficiente para ganhar o pão de cada dia.

 

O homem correu

Apressado, o lixo recolheu

Seu almoço não comeu

Guardou, e deu para seu filho quando anoiteceu.

 

O dia lá se vai

A jornada terminou

A empregada chega em casa

Foi a primeira que chorou.

 

ALEX DANCINI


Escrito por Alex Dancini às 10h33
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Ah, se eu pudesse

 

 

Sentado a sua frente

Ao brilho das estrelas

Olho para você

Por isso não posso vê-las.

 

Quero saber de onde vem

O brilho dos seus olhos

Parecem duas estrelas

Que há pouco iluminava os tolos.

 

Se por um instante me olhares

Em meus olhos poderás ver

O desejo incontrolável

De por um instante te ter.

 

Seu olhar encontra-se com o meu

As cortinas do mundo se fecham

E sem perceber onde estamos

Levemente, nossos lábios se tocam.

 

Tudo poderia acontecer ao nosso redor

Nada poderia nos separar

Parar o tempo eu seria capaz

Para seus lábios outra vez tocar.

 

ALEX DANCINI

 


Escrito por Alex Dancini às 10h33
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Poesia que fala daquilo que é necessário a todo ser: ter um Deus. (Música "Como Eu Te Vejo", Rosa de Saron)

Escrito por Alex Dancini às 02h08
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Finges ou Vives?

 

Se corres para um lado

Esqueces do outro.

Mal sabes o que de fato queres

Se pensas como um louco.

Nada existe além do nada

Para aquele quem em nada acredita,

Vive como eu vivo, sem mais nem menos

Nessa trama maldita.

O que te fazes ver o que vês

Não está ao seu alcance dominá-lo

Finges amar o que amas

Para um dia abandoná-lo.

Sabes o que tens dentro de ti?

Apenas uma alma sedenta

Que busca fazeres o bem

Desde que esteja de acordo

Com tua consciência.

Bem e mal te buscam

Seja para que lado fores

Sempre estarão lá

Mesmo nos mais belos amores.

Belos e malditos

Dividem o mesmo espaço

Convivem tranqüilamente

No íntimo de teu regaço.

Se tens bondade

Tens,

Na mesma medida

A maldade.

Se preferes acreditar que não

Tens toda liberdade

Tola liberdade

Tolo, no entanto, liberto.

 ALEX DANCINI

 

Escrito por Alex Dancini às 01h40
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Incompletude

 

No espaço,

A presença, a matéria. No vazio do ser, o silêncio.

Se há, não há vazio.

Somos por partes, não a completude. Onde estamos, alguém estava.

Onde estávamos, só o silêncio.

Alguém tomou o lugar,

Que há pouco era nosso. Seja na imagem ou no real,

A presença do igual.

Igual a hoje, só o depois do ontem.

E não há nada a fazer,

Para o Chronos conter.

Só o vazio e o silêncio...

O fim do ser.

Alex Dancini

 

Escrito por Alex Dancini às 01h36
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14/07/2008


Balada do Poeta Biruta

Se insano é Olavo dos Guimarães Bilac
Com seu "Delírio", sua "Via Láctea"
Sensatez de que serve? Mate-a!
Havendo, pois, quem me ataque
Por dizer que falta um parafuso
Em Fernando Pessoa de Portugal
Ou por chamar Camões de anormal
Imprudente que sou, escuso.

Tem senso Drummond de Andrade
Dizer que há gente com cheiro de cafuné?
E agora, José?
Agora é loucura, genialidade!

Poesia é o hospício d’alma
Hospício que não sana, vicia
Il cui Dante portò dal cielo della pazzia
Dal cielo che mi rubba la calma

Até Kolody, minha favorita
Na brevidade dos haicais
Mostra que não são normais
Os namorados da escrita

E se divago em tom introspecto
Rabiscando sob tensão metalingüista
É que ainda há quem insista
não ser louca Clarice Lispector

Palavra inútil e filadaputa
Derramo agora em meu teclado
Poema sem jeito, inadequado
Inquieto, peabiruta

Sou louco, sim, sem exceto
Como louco é Miguel Sanches Neto
E se também o é Alex Dancini
Haverá quem me recrimine?



___
P.S. Escrevi esse poema pensando numa afirmação do poeta ararunense Alex Dancini [sobrenome cuja pronúncia eu pensava que fosse "Dantchini"] que, comentando a postagem anterior a essa, disse: "Escrever aquilo que está na mente é o início da corroboração de que se é um pouco louco".

Depois duma breve discussão comigo mesmo, concordei. Sou doido, biruta. Reconheço.(Fábio Sexugui) http://peabiruta.blogspot.com/

Escrito por Dancini às 10h34
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O som que me leva à introspeção

Escrito por Dancini às 01h48
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22/06/2008


Mais Um

 

 

Dia desses, andava na mira do ponto

Aquele aonde pára a circular

Ninguém pela rua,

Nem bom dia pra falar.

Sozinho, ainda no escuro

Quase que ali mesmo caio

Ao tropeçar não sei em que

Em algo encostado no muro.

Ainda em pé, susto passado

O que no chão estava suspirou

E sem abrir os olhos

Duas palavras falou:

 

- Bom dia!

 

Mil desculpas caro amigo

Se por ventura o machuquei

Por que não procurastes um abrigo

Para dormires como rei?

 

- Imagina seu moço

Eu estou bem

Para ser um rei

Falta-me apenas um papelão que aqui não tem.

De onde vem seu moço

Assim tão arrumado

E aonde vais

Assim tão apressado?

 

Ah, venho de casa

Moro logo ao lado

Vou para a faculdade

Aonde tenho estudado.

Agora é minha vez de perguntar

Se não for lhe incomodar

Não tens um pequeno teto

Um lugar para morar?

 

- Tenho não. Vivo assim todos os dias

Já não é mais novidade

E por assim ser minha vida

De viver não tenho mais vontade.

 

Estendo minha mão

Para que possas levantar-te

Dei-me sua mão

Para que eu possa ajudar-te.

 

- Obrigado seu moço

Mas aqui vou ficar

De tanto passar fome

Não consigo de pé estar.

Faz dois dias que não como

Minha barriga já dói

E o meu “sem ter o que comer”

É o homem quem constrói.

Todos os dias homens e mulheres

Por essa rua passam

Alguns querem olhar

Outros olham e disfarçam.

Uma moeda às vezes cai

É um homem quem a joga

Vai alegre e sorridente

Está vestido na última moda.

Um outro ainda passa

Ele tem um carro do ano

No bolso tem uma chave

No chaveiro a imagem de um Santo.

Escrito por Dancini às 12h06
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 ( continuação)

Minha circular já está saindo e ela saindo eu saio também...

 

Meu caro amigo

Tenho de ir

O lusco-fusco passou

E é hora de partir.

Segure em meu ombro

Se sozinho não podes andar

Há pessoas pela rua

E comida iremos achar.

Sigamos em frente

Como se fôssemos soldados

Que na guerra perdida

Sentem-se desolados.

Entremos aqui

E alguma coisa comamos

Enquanto lá fora caminham

Trabalhadores humanos.

Chegou a comida

E comendo estamos

Sem muito esforço

Lá fora escutamos:

 

- Minha calçada está suja

O que aconteceu

Se alguém aqui dormiu

Tomara que já morreu.

Se assim aconteceu

Amanhã acordarei

E para minha alegria

Sujeira alguma aqui verei

 

Essas palavras

Só eu as escutei

Sem ter o que fazer

Apenas minha cabeça abaixei.

Muita comida

O senhor comeu

E, de tanto comer

Sua barriga se encheu.

Levantou-se do banco percebendo

Que em pé já podia ficar

Ensaiou um sorriso

E viu que podia caminhar.

 

Seu moço embora me vou

Para aonde eu não sei

Obrigado pela ajuda

Muito feliz você me fez.

Dia desses

Nos veremos por aí

Ao encontrar-te novamente

Esteja certo de que irei sorrir.

Deixo-te, para terminar

Meu nome e sobrenome

Me chamo “apenas um”

Dos milhões que passam fome.

ALEX DANCINI

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Dancini às 12h06
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CONTO

 

À Espera de Alguém

 

 

A segunda-feira começava lenta e calma para meu espanto. Trabalhadores pedalavam fortemente suas bicicletas na ansiedade de chegarem aos seus destinos e, ao lado dos trabalhadores, passava, na calçada, um menino chutando uma pedra que insistia em estar a sua frente. Os trabalhadores pedalavam em direção a seus trabalhos, e o menino chutava a pedra e andava, também, para seu trabalho. Trabalhadores e menino cumprimentavam-se e trocavam sorrisos todos os dias, no entanto, o sorriso do menino não combinava com o sorriso de seus amigos trabalhadores, o sorriso destes era alegre, o do menino, não.

Levava cerca de dois minutos para que trabalhadores e menino não mais se vissem, já que as pedaladas se davam em ritmo acelerado e os carros já começavam a tomar conta das ruas, fazendo com que a visão do menino alcançasse um curto espaço daquilo que a sua frente estava, e que não era pedra, mas agora, um amontoado e imenso congestionamento. Ele já não mais podia chutar a pedra e tampouco os carros que tomavam seu lugar na faixa de pedestres. O menino mal conseguia atravessar as ruas, tudo tinha de ser calculado friamente para que ele não invadisse o território dos luxuosos automóveis que à sua frente passavam. Curiosamente, os vidros dos carros eram levemente escurecidos, e em meio a um carro e outro o menino perguntava-se por que não o deixavam ver quem dirigia os cobiçados e luxuosos carros.

O farol se abriu para os carros, mas não para o menino. Ele ficou ali, parado, esperando que alguém passasse com os vidros do carro abaixado para que pudessem, menino e dono do carro, conversarem um pouco sobre mais um dia que acabara de começar. Naquele farol era corriqueiro a passagem apenas de executivos, grandes empresários e outros mais que gostavam de passar pelo lugar que sempre tinha um menino esperando alguém, não se sabia quem, nem mesmo o menino sabia. Mas ele esperava alguém.

O dia já se mostrava luzente e o sol incumbia-se de providenciar um intenso e forte calor já pela manhã. O menino, que tinha na cabeça um velho e surrado boné, não importava-se muito com o calor que muitos diziam ser parecido com o do inferno, ele já se acostumara. De boné na cabeça, o menino acenava para os carros e mostrava algumas balas embaladas num simples papel, na esperança de que alguém o enxergasse e o ajudasse com alguns centavos, levando uma bala, que apesar de estar embalada num simples papel, era saborosa.

Na cidade, há sempre aqueles que querem apreciar as belas construções e não querem vê-las através dos escurecidos vidros dos carros, nesse caso, eles abaixam os vidros e apreciam os arranha-céus, o carro mais novo que acaba de passar ao lado e, agora, com os vidros abaixados, vêem também um homem velho, que quase sem forças, empurra seu velho carrinho e recolhe objetos depois de revirar de cima a baixo as latas de lixo. Alguns desses apreciadores das grandes e belas construções da cidade, também passam pelo farol que costuma sempre ter um menino esperando alguém e que ninguém sabe quem, nem mesmo o menino. Com os vidros abaixados, todos vêem o menino. Boné na cabeça, uma pequena mochila, chinelo nos pés e sua camisa tem um pequeno buraco que, na verdade, nem é tão pequeno assim, já que alguns executivos conseguem contar os “ossinhos” da costela do menino.

Com muito custo o menino avista, lá na frente, um carro com os vidros abaixados e sem hesitar dirige-se em direção ao carro. O sinal se fecha. O menino oferece suas balas embaladas num papel simples, mas muito saborosas e ao mesmo tempo sorri para o motorista que leva consigo uma bíblia. Ele é pastor e, antes de qualquer coisa, pergunta ao menino onde estão seu pai e sua mãe, onde ele mora, por que não está na escola, enfim, essas coisas que se pergunta quando se quer cativar alguém. O menino, que já não mais sorri, responde que não tem pai nem mãe, mora com sua avó e mais dois primos numa favela a uns sete quilômetros dali. O pastor, que esforça-se para não escapar à norma culta da língua portuguesa, dá ao garoto um pequeno cartão contendo o endereço de sua igreja que, por sinal, fica próximo à favela do menino e diz que espera a família para um culto, no qual ambos, receberão a graça de Deus e,“se Deus quiser - diz o pastor - sairão da situação na qual se encontram e viverão dignamente da forma como quer o senhor”. E, quiçá, Deus queira mesmo que o menino saia do farol, pois se depender do pastor ele ficará ali por muito tempo. Entretanto, dizem por aí que os pastores são os escolhidos para anunciar a boa nova do senhor aqui na terra e, sendo assim, talvez Deus queira mesmo que o menino fique no farol esperando alguém, não se sabe quem, enquanto passam por ali mais alguns pastores que correm para anunciar que o fim do mundo já chegou.

Já se aproximava a hora do almoço e o menino já sentia fome, mas, em obediência, aguardava a boa nova do senhor com a barriga vazia. Já com as pernas trêmulas de fraqueza, o menino vê um carro de cor cinza que se aproxima do farol e tem seu vidro abaixado, pois o motorista avistava as belezas humanas, ou seja, as construções que o homem projetou na cidade e também a beleza natural, claro, projetada por Deus. O sinal fechou. O carro pára, o menino aproxima-se, estende a mão, abre um sorriso e oferece suas balas ao motorista que, por sinal, é um padre que veste roupas de tecido importado; o carro é lançamento, havia chegado à concessionária há uma semana, como dizem por aí, ainda estava “amaciando o motor”. O padre tomava um refrigerante, levava-o à boca e o retornava ao porta-latas de seu humilde carro, enquanto isso, estava lá o menino que quase sem força para pronunciar as palavras, pedia para que o padre comprasse suas balas embaladas num humilde papel, mas muito saborosas, pois estava com fome e usaria o dinheiro para alimentar-se. O padre, sorridente, ao contrário do menino que já derramava lágrimas, dizia que só tinha consigo cartões de crédito o que tornava impossível a compra das balas. O sinal abriu para o padre. Sem perder tempo, o representante de Deus na terra apanhou um chiclete e o entregou ao menino dizendo: “tomai esse chiclete, masque-o veemente e reze dois pai-nossos para que Deus possa retirá-lo dessa situação”, e ao fim da benção, disse que “se Deus quiser, o menino sairá daquele farol”. E, quiçá, Deus queira mesmo que o menino não mais precise ficar no farol, pois se depender do padre, ele rezará muitos pai-nossos “sol a pio”. Entretanto, dizem que os padres são a voz de Deus na terra, seus verdadeiros representantes, já que é assim, o menino está no caminho certo.

O sol atinge o meio do céu, o menino mal abre o olho e encostado num poste, olha o horizonte e não consegue ver nada à sua frente, além, é claro, da fome que há horas o atormenta. Quase que desmaiado, o menino ainda encontra forças para enxergar um carro que se aproxima, vem lentamente, parando. Na verdade, não é bem um carro, é um carrinho, e de lixo. Atrás do carrinho vem o homem velho, aquele que os motoristas quando estão com os vidros abaixados conseguem vê-lo. Também quase sem forças, o homem velho empurra com dificuldades sua ferramenta de trabalho, naquele momento abundante em papéis, latas e lixo. O homem velho posiciona o carrinho à beira da calçada de maneira que se forme uma pequena sombra sobre o menino e retirando do bolso um pequeno pedaço de pão, o parte ao meio e dá ao menino dizendo: este é meu alimento que seria usado para matar a fome do meu corpo, mas a sua fome é maior e sua força menor, tomai e comei. O menino que já mostrava-se mais animado e forte tomou o pão, comeu a metade, sentiu-se saciado e deu a outra metade para o velho homem que comeu e também ficou saciado.

Após comerem, as nuvens encarregaram-se de tapar o sol e a tarde envolveu-se de um clima agradável, no qual, homem velho e menino não mais preocupavam-se em recolher lixo ou vender balas, pois o menino encantara-se com as lindas histórias que seu novo amigo acabara de contar. Como era a primeira vez que os dois haviam se encontrado, a curiosidade de criança do menino do farol levou-o a fazer perguntas sobre a vida do homem velho. “Onde o senhor mora”? Dizia o menino. “Quantos anos o senhor tem? O que faz aqui no farol com esse carrinho”? Com exímia paciência, o homem velho respondeu a primeira pergunta e disse que morava em muitos lugares, pois tudo dependia de como era acolhido e da morada que o davam. Respondeu também a segunda pergunta e disse que tinha muitos anos, até perdera a conta, já que há vários calendários espalhados pelo mundo e cada um diz uma coisa. Ao responder a terceira pergunta o homem velho abaixou a cabeça, deixou cair uma lágrima ao chão e olhando novamente para os olhos do menino disse: Meu filho, fico aqui perto desse farol para observar quanta hipocrisia há no coração do homem, pois muitos dizem ser seguidores daquele que sempre amou seu próximo, mas não conseguem estender a mão àquele que, ao lado, precisa de ajuda. Fico perto desse farol, meu filho, para observar, com tristeza, a importância que o homem dá para sua construções e os bens materiais, mas não conseguem perceber e, acima de tudo, sentir, quanta miséria é necessária para sustentar tudo isso. E dizendo mais algumas palavras, fez com que o menino, já cansado do seu trabalho, dormisse em seu colo. O homem velho arrumou com cuidado um lugar em seu carrinho que já não mais tinha lixo, mas apenas alguns papéis, deitou o menino e o levou para um lugar desconhecido. O menino esperava alguém. O alguém chegou, matou sua fome, conversou com ele e o fez dormir de uma forma que só um pai consegue fazer. O alguém fez algo muito simples, foi amigo.

O menino dormiu, mas a rotina do farol continua a mesma, passam ali centenas de carros e ninguém vê o outro menino que agora trabalha ali, sempre esperando alguém.

 

Escrito por Dancini às 11h47
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